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Na Amazônia, o dia começa cedo

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Antes das seis da manhã, o céu já clareia, o sol se apresenta e mostra a sua força. A umidade do ar aqui na região, no período de chuva, chega próximo a 90%, resultado direto da maior floresta tropical do mundo, que libera vapor d’água responsável pelos chamados "rios voadores", que influenciam o clima no restante do Brasil e em toda a América Latina.

A primeira vez que vim a Rondônia, há quase vinte anos, tive, ao desembarcar do avião, a sensação de abrir a porta do forno do fogão. Foi inesquecível.

Deixei o interior de Minas Gerais, vida simples, rua de paralelepípedo, poucas opções de emprego, e o tempo demorava a passar. Cheguei com poucas roupas, muitos planos e a ideia comum de quem ainda acredita que o trabalho pode abrir caminhos.

A minha história não era incomum. Ao longo de mais de um século, pessoas de diversos países e regiões do Brasil vieram desafiar a Amazônia, movidas por oportunidades e necessidades, em ciclos diversos, como o da borracha, do ouro, o agrícola e as grandes construções de barragens.

A Amazônia era apenas um destino profissional, a ideia inicial era retornar em três anos. Acabou virando o lugar onde construí minha família.

Sabia da distância, do isolamento, de algumas carências e dificuldades. Com o tempo, percebi que era bem mais complexa.

As distâncias são grandes, as estradas muitas vezes precárias e o saneamento básico ainda é um desafio. Em Rondônia, menos da metade da população tem acesso a rede de água encanada e cerca de 10% está conectada à rede de esgoto. A floresta sozinha não explica a Amazônia, mas a luta e a disposição das pessoas para superar os obstáculos.

A Amazônia muda quem permanece.

Constituí e formei minha família, nasceram minhas filhas e aprendi algo importante: a Amazônia não é apenas um assunto ambiental. Ela é, além de tudo, uma realidade social.

A Amazônia não é apenas floresta e estatísticas, mas um território vivo, marcado por conflitos, resistência, superação e economia pulsante. É feita de gente, de cultura e trabalho, não pode ser apenas uma vitrine exótica.

Por isso, esta coluna não pretende discutir política, operações policiais ou sustentabilidade para "inglês" ver. A proposta é outra.

O objetivo é apresentar ao leitor uma visão da realidade, sem excesso, registrar a visão de quem enfrenta o clima pesado, as chuvas fortes, as estradas de terra e a rotina de uma região onde a riqueza natural convive com dificuldades muito concretas.

A Amazônia concentra grande biodiversidade, terra fértil, minerais, mas ainda sofre com insegurança fundiária, gargalos logísticos e uma presença estatal irregular ao longo da história.

Agora surge uma nova economia para a região, fala-se em rastreabilidade, regularização de terras, cadeias produtivas sustentáveis e mercado ambiental. Esses temas já estão nos centros financeiros do país, mas ainda são pouco compreendidos fora da região.

A proposta é ajudar a encurtar essa distância.

Depois de tantos anos vivendo aqui, terei o cuidado de não romantizar a Amazônia, nem de condená-la, mas de explicar seus desafios e também suas possibilidades e espero contribuir ajudando a traduzir a realidade da região para quem está longe.

A Amazônia não é apenas um patrimônio ambiental brasileiro. Ela é território habitado, com gente vivendo, trabalhando e criando filhos. Não existe solução para a Amazônia sem entender quem vive nela.


Fabrício Camargo


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