A sobretaxa adicional de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos sobre cerca de 3 mil produtos exportados pelo Brasil entra em vigor nesta quarta-feira. A medida foi confirmada na última semana pela gestão do presidente Donald Trump após investigações comerciais e atinge diretamente a indústria e o agronegócio nacional. O impacto financeiro estimado pelo governo brasileiro atinge entre 15% e 18% do volume total vendido aos americanos, o que representa algo entre 29,4 bilhões e 37,6 bilhões de reais em mercadorias.
Apesar da abrangência da retaliação econômica, a Casa Branca optou por manter fora da lista diversos itens considerados estratégicos para o seu próprio mercado interno. Produtos primários e matérias-primas essenciais como petróleo bruto, café em grão, carne bovina, celulose, aeronaves, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio não pagarão a taxa extra. O pragmatismo americano buscou evitar o desabastecimento local e o encarecimento de insumos básicos.
Por outro lado, setores brasileiros de etanol, máquinas industriais e agrícolas, pneus, açúcar, tabaco, madeira, calçados e derivados de alumínio sofrerão os impactos imediatos do encarecimento de suas mercadorias na alfândega dos Estados Unidos.
A justificativa de Washington para a imposição tarifária teve como base a Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974. O relatório do Representante de Comércio dos Estados Unidos acusou o Brasil de manter políticas consideradas irracionais e restritivas que prejudicam as empresas americanas.
O documento criticou abertamente o sistema de pagamentos Pix, sob a alegação de que ele prejudica operadoras de cartão dos Estados Unidos, e questionou decisões judiciais brasileiras sobre plataformas digitais. O governo americano também citou a concessão de tarifas preferenciais a parceiros como Índia e México, além de alegar problemas na fiscalização do desmatamento ilegal e na proteção à propriedade intelectual.
Em Brasília, o clima é de indignação aliado a um esforço para conter o acirramento diplomático. O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a sobretaxa como injusta e descabida, reforçando que o país manterá o diálogo. O governo brasileiro considera as alegações americanas uma tentativa indevida de ingerência em assuntos internos e soberanos do país. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou interlocutores a agirem com cautela para evitar uma escalada de retaliações mútuas que pudesse paralisar o comércio bilateral, a exemplo do que ocorreu no passado na disputa entre Estados Unidos e China.
Embora o governo federal tenha anunciado na semana passada que acionaria a Lei da Reciprocidade Econômica para impor sanções de resposta, a aplicação prática dessa legislação foi adiada. Empresários dos setores afetados solicitaram ao Ministério do Desenvolvimento que priorize as vias diplomáticas, temendo uma reação ainda mais dura de Washington, que já ameaça aplicar uma taxa extra de 12,5% sob justificativas trabalhistas. O diagnóstico no Palácio do Planalto é de que uma resposta precipitada poderia prejudicar o setor produtivo e alimentar discursos políticos de oposição em ano eleitoral.
Para amparar os exportadores prejudicados, o governo articula um pacote de ajuda econômica centrado na oferta de crédito facilitado. As empresas atingidas que mantiverem seus postos de trabalho poderão acessar financiamentos do Plano Brasil Soberano.
Em paralelo, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos destinará 130 milhões de reais a partir de agosto para apoiar a diversificação de mercados, focando nas oportunidades abertas pelo acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Analistas avaliam que o Brasil deve focar agora em negociações técnicas pontuais, no diálogo direto com importadores americanos e na busca por novos parceiros comerciais.
cm7brasil