Em Rondônia, mais de 122 mil eleitores estão com o título cancelado às vésperas do fechamento do cadastro eleitoral. Em termos percentuais, trata-se de 11,1% do eleitorado estadual — cerca de um em cada dez cidadãos aptos a votar. O dado chama atenção não apenas pelo volume, mas pelo que ele revela sobre a relação entre parte da população e o sistema democrático. Quando tantos eleitores ficam em situação irregular, há um problema que vai além da burocracia.
A legislação é clara ao prever o cancelamento do título para quem deixa de votar em três eleições consecutivas sem justificar ausência. Trata-se de uma regra conhecida e que busca manter atualizado o cadastro eleitoral. Sob esse aspecto, a Justiça Eleitoral cumpre um papel institucional ao exigir regularidade documental e ao estabelecer prazos objetivos. Também é correto ampliar horários de atendimento e reforçar canais de comunicação em períodos críticos, como fez o TRE de Rondônia.
Ainda assim, limitar a discussão ao cumprimento da norma seria simplificar um fenômeno mais amplo. É preciso questionar por que milhares de pessoas deixam de votar repetidamente ou sequer acompanham sua situação eleitoral. Em um estado marcado por desafios geográficos, desigualdade social e dificuldades de acesso a serviços públicos, deslocar-se até um cartório eleitoral ainda representa obstáculo real para parte da população, sobretudo em municípios distantes e áreas rurais.
Há também um componente de desinteresse político que não pode ser ignorado. Parte do eleitorado demonstra descrença nas instituições e nos representantes eleitos. Essa percepção, alimentada por sucessivas crises políticas, escândalos de corrupção e promessas não cumpridas, ajuda a explicar o afastamento de alguns cidadãos do processo eleitoral. O problema é que a ausência nas urnas, embora compreensível para alguns, não produz mudanças estruturais. Ao contrário: reduz a participação social em decisões que afetam diretamente a vida coletiva.
Também cabe atenção ao modelo de regularização. Enquanto diversos serviços migraram para plataformas digitais, o eleitor com título cancelado ainda precisa comparecer presencialmente ao cartório. A exigência pode ser justificável por questões de segurança cadastral, mas reforça a necessidade de ampliar alternativas tecnológicas sem comprometer a confiabilidade do sistema.
Responsabilidade individual e dever institucional precisam caminhar juntos. Cabe ao eleitor acompanhar sua situação e respeitar os prazos. Cabe ao poder público garantir informação clara, acesso simplificado e atendimento eficiente. Democracia não se resume ao voto, mas começa por ele. Ignorar esse alerta pode custar mais do que uma ausência na urna. Pode ampliar o distanciamento entre cidadãos e instituições.
Diário da Amazônia