Uma cientista brasileira é gerente de um programa que busca a origem do Universo no deserto do Atacama, no Chile. A astrofísica Julliana Denes, 38, trabalha há quase nove anos no projeto CLASS (Levantamento Cosmológico em Grande Escala Angular, em tradução livre).
O projeto que Julliana atua tem como missão observar o céu em micro-ondas e analisa, principalmente, a 'Radiação Cósmica de Fundo', que é a luz mais antiga possível de indentificar, emitida quando o Universo tinha cerca de 380 mil anos de idade. Os telescópios são ferramenta para tentar responder questões do Universo primordial, investigando o início de tudo, cerca de 14 bilhões de anos atrás.
"Observamos aproximadamente 75% de todo o céu visível da Terra todos os dias, medindo pequenas variações de temperatura e polarização da radiação de fundo do Universo", explica Jullianna Denes, gerente do projeto CLASS.
A pesquisa é da Universidade de Johns Hopkins University, dos Estados Unidos da América e financiado pela National Science Foundation.
O programa tem desenvolvido pesquisas inéditas na área da astronomia para desvendar os mistérios da formação do Universo. "Um dos principais mistérios que investigamos é a inflação cósmica, uma expansão extremamente rápida que pode ter ocorrido nos primeiros instantes da história do Universo. No ano passado, publicamos o principal resultado científico do projeto até o momento: a medida terrestre mais precisa da profundidade óptica da reionização. Esse parâmetro nos ajuda a determinar quando as primeiras estrelas começaram a iluminar o Universo e transformar o gás primordial ao seu redor — um período conhecido como amanhecer cósmico", afirma a pesquisadora.
O Brasil não opera nenhum grande observatório atualmente, mas cientistas brasileiros participam e integram diversos projetos internacionais instalados na região. Os profissionais atuam em áreas variadas, desde cosmologia e astrofísica até o desenvolvimento de instrumentação.
"Costumo brincar que me mudar para o Atacama foi o meu experimento do gato de Schrödinger. Até eu aceitar a vaga, existiam dois resultados possíveis: a melhor decisão da minha vida ou um desastre completo. Nove anos depois, acho que podemos concluir que o gato sobreviveu. Na época, eu estava me formando em uma área diferente da que atuo hoje e não tinha experiência direta com instrumentação científica. Mesmo assim, achei fascinante o desafio de trabalhar em um observatório astronômico e acompanhar a ciência acontecendo em tempo real"
Julliana Denes, astrofísica e gerente do projeto CLASS
Trabalho 'braçal'
Segundo Julliana, as pessoas acreditam que astronomia é apenas a observação por um telescópio durante a noite, mas a realidade não poderia ser mais diferente. "Grande parte do meu trabalho envolve engenharia, manutenção, logística, gerenciamento de projetos e resolução de problemas em equipamentos extremamente complexos", completa a gerente do CLASS.
Outro ponto importante é que a variação de temperatura e clima do Atacama é um obstáculo para o funcionamento dos telescópios, tornando o local um ambiente hostil para os equipamentos.
"Muitas vezes, fazer ciência de ponta significa resolver problemas inesperados em um dos lugares mais remotos do planeta. Trabalhar em um observatório no Atacama é uma mistura improvável entre astrofísica, engenharia, montanhismo e muita, mais muita criatividade."
Julliana Denes, astrofísica e gerente do projeto CLASS
Altitude
No empreendimento onde os telescópios operam, a altitude é de 5.200 metros, fazendo que a pressão atmosférica seja metade do padrão quando estamos no nível do mar. "No ar é rarefeito até tarefas simples exigem maior esforço físico e mental. A temperatura mais baixa que já registramos no observatório foi de aproximadamente -45°C, e durante o inverno os ventos podem ultrapassar 100 km/h. Existe também um lado muito humano", finaliza a astrofísica.
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