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Botafogo quer afastar John Textor e dar passo para mudar gestão da SAF

De herói da instituição, entre 2022 e 2024, o investidor passou a ser visto por muitos como vilão por promessas não cumpridas


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Divulgação/Botafogo F.R.

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Esta quarta-feira (29), dia de estreia do Botafogo no Campeonato Brasileiro, diante do Cruzeiro, no Estádio Nilton Santos, pode marcar o início de uma mudança de rumos na gestão da Sociedade Anônima do Futebol do clube.

Líder e presidente da SAF, o norte-americano John Textor é aguardado no estádio, após meses longe dos holofotes, e enfrentará resistências de parte da torcida e de lideranças da associação.

De herói da instituição, entre 2022 e 2024, o investidor passou a ser visto por muitos como vilão por promessas não cumpridas, dívidas geradas e um transfer ban.

Ao mesmo tempo em que um movimento de líderes do clube associativo já cogita buscar na Justiça o afastamento de Textor da SAF, o empresário também entrou em rota de colisão com o seu então braço direito, Thairo Arruda, CEO do Botafogo.

O motivo foi a recusa de Thairo em assinar um empréstimo de um fundo à instituição com juros muito altos.

Como é público, o Botafogo foi punido com um transfer ban pelo não pagamento de R$ 120 milhões ao Atlanta United, da MLS, pela contratação do meia argentino Thiago Almada, em 2024.

Sem dinheiro para arcar com essa multa, Textor captou recursos de um fundo, não revelado, com previsão de 25% de juros ao mês. Thairo Arruda se recusou a aprovar a operação e não assinou o documento.

As garantias apresentadas por John Textor nessa operação são ativos do Botafogo. Nesse caso, mais jogadores valiosos poderiam deixar de pertencer à instituição em caso de não pagamento desses empréstimos.

O impasse chegou ao conhecimento da Associação, do Conselho Deliberativo e deixou Textor ainda mais pressionado na gestão da SAF.

Como se isso não bastasse, o clube tem conhecimento de uma "fila de transfer ban" estimada em R$ 100 milhões, o que exigiria mais aportes.

A dívida total da SAF gerida por John Textor já chega a R$ 1,5 bilhão, o que engloba um passivo da antiga associação de R$ 700 milhões. Boa parte desses débitos preveem pagamentos em curto prazo, e têm juros mais altos. Esse cenário exige urgência na reorganização da empresa, segundo entendimento de integrantes da associação ouvidos pela Itatiaia.

SAF em Recuperação Judicial

No entendimento de lideranças da associação, a SAF do Botafogo precisa entrar em Recuperação Judicial para equacionar as dívidas contraídas na gestão de John Textor e não inviabilizar a empresa.

O impasse é que uma das condições alinhadas nos bastidores para levar a Recuperação Judicial adiante é o afastamento de John Textor da SAF. No momento, o norte-americano se sustenta no poder graças a uma liminar concedida pela Justiça do Rio de Janeiro em outubro de 2025. A mesma decisão judicial mantém no cargo o CEO Thairo Arruda.

Derrubada de liminar e futuro da gestão

Já é consenso entre lideranças do clube associativo que a derrubada da liminar que mantém Textor na SAF precisa partir da Eagle Football Holdings, empresa que oficialmente detém os 90% da empresa.

O presidente da associação, João Paulo Magalhães Lins, e o presidente histórico do clube, Carlos Augusto Montenegro, são oposição a Textor na SAF.

Em 26 de janeiro, o Botafogo de Futebol e Regatas pediu ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) a manutenção de uma decisão que obriga a SAF a comunicar a associação sobre atos financeiros, dentre eles vendas de ativos. A intenção do clube é monitorar as ações de Textor.

Por mais que detenha apenas 10% da SAF do Botafogo, a associação é protegida por cláusulas especiais (golden share) que lhe conferem poder de veto em certas operações, como eventual esvaziamento do patrimônio.

Clube associativo não quer futebol de volta

Entre os líderes do movimento que tenta derrubar Textor há clareza de que a solução para o futebol do Botafogo é a entrada da Ares Management, acionista da Eagle, na gestão. A empresa cobra mais quase US$ 450 milhões de Textor por empréstimos feitos em 2022, quando o norte-americano adquiriu o Lyon da França - John foi afastado do clube francês em junho de 2025 por problemas na administração.

O cenário perfeito, para a associação, é que a Ares convertesse parte da dívida de Textor em ações do Botafogo e assim se juntasse à Eagle numa gestão compartilhada. O clube voltaria a ter alavancagens financeiras e poderia quitar suas dívidas de curto prazo, dentre elas o transfer ban.

Não está em discussão, por exemplo, que a associação reassuma o futebol no futuro.

Textor concedeu entrevista recente ao canal Arena Alvinegra e descartou deixar o comando da SAF do Botafogo. "Quando as coisas ficam difíceis, você não abandona. Isso é ridículo. Eu não me importo se os torcedores não apreciam mais os títulos. Eu sou o dono certo para esse clube".

Textor demitido pela Ares da Eagle

Na terça-feira (27), John Textor sofreu mais um duro golpe e foi demitido pela Ares (fundo credor) da gestão da Eagle, acionista majoritária do Botafogo. O norte-americano só se segurou no cargo de presidente da SAF por conta da liminar concedida em outubro pela Justiça do Rio.

O motivo da demissão de Textor foi a sua decisão de tirar dos conselhos da Ares e da Eagles dois diretores: Stephen Welch e Hemen Tseayo. Ambos eram contrários ao novo aporte no Botafogo, oriundo de um empréstimo com juros elevados (o mesmo do qual Thairo Arruda discordou).

A Ares já tinha tirado Textor do controle do Lyon em junho do ano passado. Oficialmente, no entanto, a saída foi tratada como renúncia por parte do norte-americano.

Linha do tempo

Março de 2022 - John Textor, por meio da Eagle, torna-se majoritário da SAF do Botafogo por aquisição fechada em R$ 400 milhões.

Ainda em 2022 - Textor pega empréstimo de US$ 450 milhões com a Ares para comprar o Lyon, da França.

2024, auge da era Textor no Botafogo - No comando do clube, Textor leva o Glorioso aos títulos do Campeonato Brasileiro e da inédita Copa Libertadores. Neste momento, ele é unanimidade dentro do Conselho, na associação e na SAF.

Junho de 2025 - Textor sai do controle da gestão do Lyon por exigência da Ares, acionista da Eagle. Quem assume o cargo de presidente é Michele Kang, acionista minoritária do Eagle Football Group.

Julho de 2025 - John Textor transferiu os ativos e a SAF do Botafogo para uma nova empresa criada nas Ilhas Cayman. A operação incluiu a venda de uma dívida da Eagle com o Botafogo, o aumento do capital social, a emissões de novas ações e um empréstimo de 100 milhões de euros, com as receitas futuras do clube como garantia.

A decisão teve a aprovação do Conselho Administrativo da SAF do Botafogo, em reunião realizada em 17 de julho.

Para a Eagle Holding Football, a ação de John Textor é ilegal. A nova gestão do grupo vê a venda da SAF do Botafogo como um caminho viável, mas, entre as alegações, entende que há um conflito de interesses com o empresário sendo o "vendedor e o comprador" ao mesmo tempo. Há o temor de denúncias de fraude na operação.

31 de julho de 2025 - John Textor e a Eagle Holding Football levaram a disputa à Justiça. Em 31 de julho, uma decisão da Justiça do Rio de Janeiro "congelou as ações de Eagle na SAF do Botafogo", impedindo alteração societária que tire o empresário do controle do clube. É com base nesta decisão que John Textor segue no comando do Glorioso.

Agosto de 2025 - A Eagle, por sua vez, entrou com processo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para impedir Textor de tomar decisões na gestão do Botafogo sem consultar a empresa além de suspender os efeitos das medidas aprovadas pelo Conselho Administrativo da SAF em 17 de julho, entre outras medidas.

Ainda em agosto de 2025 - Em nota publicada em 4 de agosto, o Botafogo confirmou o "fim do caixa único" (cash pooling) entre os clubes da Eagle e as dívidas do Lyon com o clube carioca.

A SAF do Botafogo também confirma a "necessidade de reembolso" por parte do Lyon por valores anteriormente emprestados. Segundo o clube carioca, o montante chega a R$ 410 milhões. A direção francesa contesta o valor.

25 de novembro de 2025 - A disputa entre o Botafogo social e a Eagle Football Holdings, controladora de 90% da SAF alvinegra, ganhou um novo capítulo nessa segunda-feira (24). O clube ingressou com uma ação na 23ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) pedindo que a empresa apresente R$ 155,4 milhões em garantias — valor equivalente a 10% do passivo que a própria Eagle declarou existir.

No processo, o Botafogo também solicita a nomeação de um interventor judicial para atuar diretamente na administração da SAF e a suspensão imediata de qualquer operação de venda de jogadores ou outros ativos da empresa.

O clube ainda pede que a Justiça proíba a distribuição de dividendos à Eagle até que seja apresentado um plano formal para regularizar a dívida acumulada.

Dezembro de 2025 - John Textor apresentou uma oferta para recomprar a SAF do Botafogo da Eagle, empresa da qual o investidor americano é acionista majoritário, mas está afastado do processo decisório há meses. Eagle discorda da operação.

22 de janeiro de 2026 - Os muros do centro de treinamento do Botafogo, no Rio de Janeiro, foram alvo de pichações. As mensagens tem críticas ao controlador da SAF do clube, John Textor. "John ladrão", "sai do Botafogo", "171 safado", "fora, Textor", "gringo 171" e "França não te quer, Brasil também" são as frases pichadas no CT. O Botafogo ainda não se pronunciou sobre o ato de vandalismo.

26 de janeiro de 2026 - Botafogo de Futebol e Regatas pediu ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) a manutenção de uma decisão que obriga a SAF a comunicar a associação sobre atos financeiros, dentre eles vendas de ativos. A intenção do clube é monitorar as ações de Textor.

27 de janeiro de 2026 - John Textor é afastado do comando da Eagle pela Ares.

A ‘Família Eagle’

Em 2022, a Eagle Holding Football adquiriu 90% das ações da SAF do Botafogo, que passou a fazer parte da "Família Eagle". Outros clubes faziam parte da rede de clubes do grupo: Crystal Palace-ING, Molenbeek-BEL e Lyon-FRA.

Mais sobre o afastamento de Textor do Lyon

A crise financeira do Lyon resultou no rebaixamento da equipe para a segunda divisão nacional, em junho de 2025, decretado pelo DNCG, órgão regulador financeiro do futebol francês.

Como parte da estratégia, John Textor foi afastado do comando do Lyon em 30 de junho.

Em 9 de julho, com Michele Kang - uma das investidoras para a compra do Lyon - na presidência e Michael Gerlinger como CEO, o clube reverteu a decisão e evitou o rebaixamento.

cnnbrasil


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