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Lula e Trump devem se reunir no domingo (26) durante cúpula na Malásia

Encontro será o primeiro desde o tarifaço de 50% imposto por Trump em julho; governos veem reunião como passo para reaproximação diplomática e revisão


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Foti: ANGELA WEISS / AFP

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Brasil e Estados Unidos acertaram para domingo (26), em Kuala Lumpur, na Malásia, o primeiro encontro formal entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump desde o início da crise comercial deflagrada pelo governo norte-americano.

A reunião está prevista para ocorrer à margem da cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que reúne dez países da região e se estenderá até o dia 28.

Diplomatas dos dois países afirmam que há "disposição de ambas as partes" para que a conversa aconteça. A Casa Branca ainda não confirmou oficialmente o horário.

O Itamaraty separou parte da manhã de domingo para reuniões bilaterais de Lula, e, até o momento, está confirmada apenas a agenda com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

Segundo o embaixador Everton Frask Lucero, diretor do Departamento de Índia, Sul e Sudeste da Ásia, "há espaço na agenda de Lula no domingo de manhã" para o encontro com o líder norte-americano.

Será a primeira reunião presencial entre Lula e Trump desde que o republicano impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros, em julho.

À época, o presidente dos Estados Unidos alegou que a medida respondia à "caça às bruxas" contra Jair Bolsonaro. A decisão elevou a tensão diplomática entre os dois países e levou o Brasil a acionar a Lei da Reciprocidade, autorizando o governo a aplicar sanções equivalentes a Washington.

As tensões começaram a se reverter em setembro, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, quando Trump mencionou Lula de forma cordial em seu discurso e os dois tiveram um breve encontro nos bastidores. O gesto abriu caminho para a retomada do diálogo diplomático.

Itamaraty aposta em "país neutro" e busca evitar constrangimentos políticos

De acordo com fontes do Palácio do Planalto, a escolha da Malásia como sede da reunião faz parte de uma estratégia para reduzir a exposição política do encontro e evitar que Lula seja colocado em posição de vulnerabilidade diante de Trump.

O governo brasileiro vinha resistindo à ideia de um convite oficial à Casa Branca, considerado um ambiente desfavorável ao presidente devido ao histórico de constrangimentos públicos protagonizados por Trump com outros líderes estrangeiros.

"Há disposição das duas partes para que a reunião presencial aconteça na Malásia. As equipes estão trabalhando para incluir o compromisso nas agendas oficiais", afirmou uma fonte diplomática ao g1.

O Planalto avalia que a conversa, se confirmada, levará o diálogo "a outro patamar" e poderá "reorganizar a relação entre Trump e Lula e a pauta entre os dois países".

A diplomacia brasileira entende que a reunião na Ásia reforça a autonomia da política externa do país, ao inserir o Brasil no centro de um cenário multipolar.

Ao longo da semana, Lula participará também de encontros empresariais e de atividades com líderes da Indonésia, do Vietnã e da Malásia, buscando ampliar o comércio e as parcerias no Sudeste Asiático.

Reaproximação após diálogo entre Mauro Vieira e Marco Rubio

O encontro de domingo foi precedido por uma rodada de conversas entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, realizada na semana passada em Washington.

Foi a primeira reunião de alto nível desde o agravamento da crise tarifária, e, segundo o comunicado conjunto divulgado após o encontro, houve "conversas muito positivas sobre comércio e questões bilaterais em andamento".

A nota, assinada também pelo representante do Comércio dos EUA, Jamieson Greer, chamou a atenção por não vincular as tarifas à condenação de Jair Bolsonaro nem às decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — um recuo em relação a declarações anteriores da ala trumpista.

Para diplomatas brasileiros, o gesto é sinal de que há orientação para buscar uma saída negociada à disputa comercial.

Durante ligação telefônica de 30 minutos no início de outubro, Lula já havia pedido a Trump que revogasse o tarifaço. A expectativa no governo é que o tema volte ao centro da conversa presencial.

Brasil pretende reafirmar soberania e condenar intervenções na América do Sul

Além das questões comerciais, Lula deve usar o encontro para reiterar a posição brasileira contrária a qualquer forma de intervenção na América do Sul.

O gesto responde à escalada de hostilidades de Trump contra governos da região. Nas últimas semanas, o presidente norte-americano autorizou operações militares no Caribe sob o pretexto de combater o narcotráfico e chegou a chamar o colombiano Gustavo Petro de "narcotraficante", acusação também dirigida a Nicolás Maduro.

Assessores de Lula afirmam que o tom do diálogo será sereno, mas firme, e que o presidente aproveitará a ocasião para reforçar a defesa de uma "zona de paz" no continente.

O Itamaraty considera que o Brasil deve reafirmar seu papel de mediador e não de alinhado a blocos geopolíticos, preservando sua independência em meio à disputa entre Washington e Caracas.

A postura diplomática adotada por Brasília — de diálogo, mas sem concessões unilaterais — contrasta com o discurso protecionista da Casa Branca e reflete a tentativa de reconstruir as pontes comerciais sem abrir mão da soberania nacional.

Viagem à Ásia reforça virada diplomática e diversificação de parcerias

A viagem de Lula à Ásia tem duração prevista de uma semana e começa pela Indonésia, onde o presidente participa de um encontro com empresários e visita a sede da ASEAN. No sábado (25), desembarca na Malásia para compromissos bilaterais e cerimônias de assinatura de atos.

A presença brasileira na cúpula simboliza o esforço de reposicionar o país em fóruns do Sul Global, num momento em que Washington enfrenta isolamento diplomático e desgaste por sua política de sanções e tarifas.

Para o governo brasileiro, o encontro com Trump — caso se concretize — não representa uma reaproximação subordinada, mas uma demonstração de maturidade política diante de um parceiro com o qual mantém divergências estruturais.

O Planalto vê o diálogo como parte da estratégia de retomada da normalidade nas relações internacionais, em consonância com o objetivo declarado por Lula de "recolocar o Brasil no mundo".

A expectativa é que, após a reunião, as equipes técnicas de ambos os países avancem em propostas concretas para revisão das sobretaxas impostas aos produtos brasileiros.

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