Quase metade dos apostadores de risco no Brasil já se encontra endividada
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O município de São Francisco do Guaporé atravessa uma de suas crises institucionais mais profundas. O desvio de aproximadamente R$ 13 milhões dos cofres públicos, confessado pelo servidor de carreira Adriano, de 29 anos, deixou de ser apenas um caso de polícia para se tornar um alerta sobre uma doença silenciosa que avança sobre a sociedade: a Ludopatia.
Em entrevista exclusiva concedida nesta segunda-feira (23) ao Portal SGC, o servidor, que atuava no setor financeiro da Prefeitura há quatro anos, descreveu sua trajetória como um "calvário". Adriano relatou que o esquema começou em abril de 2025, com um desvio pequeno de R$ 300, que chegou a ser devolvido. No entanto, a compulsão pelos jogos de azar eletrônicos, conhecidos popularmente como "Tigrinho", tomou o controle. Segundo ele, o montante milionário não foi usado para ostentação ou compra de bens, mas sim integralmente consumido pelas apostas online na tentativa desesperada de ganhar - o que será verificado pelas investigações. Adriano, em seu relato, chegou a mencionar que viveu situação de crise no passado quando chegou a dever 25 mil pegos para empregar em apostas.
Ludopatia
Embora o caso esteja sendo riorosamente investigado pela Polícia Civil e por uma CPI da Câmara de Vereadores, o relato de Adriano traz à tona um questionamento sobre um relevante problema de saúde pública mundial. Mas afinal, o que é a Ludopatia?
A ludopatia, ou transtorno do jogo, tornou-se uma crise global exacerbada pela digitalização. No cenário mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 1,2% da população adulta sofra de transtorno do jogo, enquanto aproximadamente 11,9% dos homens e 5,5% das mulheres experimentam algum nível de dano decorrente da atividade.
O impacto é severo: pessoas com esse transtorno têm um risco 15 vezes maior de morte por suicídio em comparação à população geral, e para cada jogador de alto risco, estima-se que seis outras pessoas próximas sejam diretamente afetadas emocional ou financeiramente. Com o mercado global de apostas projetado para atingir 700 bilhões de dólares até 2028, a facilidade de acesso via smartphones em países de média e baixa renda tem impulsionado um crescimento alarmante da doença.
No Brasil, os dados de 2024 e 2025 revelam uma "epidemia das bets". Pesquisas indicam que entre 2,1 milhões e 2,8 milhões de brasileiros já enfrentam a ludopatia patológica, enquanto o número de apostadores considerados "de risco" chega a 11 milhões. O reflexo na saúde pública é visível: entre junho de 2023 e abril de 2025, o número de auxílios-doença concedidos pelo INSS devido ao vício em jogos saltou mais de 2.300%.
Além do custo humano, o impacto econômico é massivo, com um estudo recente apontando que o vício em apostas online custa ao país cerca de R$ 38,8 bilhões por ano, somando perdas de produtividade, gastos com saúde para tratar depressão e custos adicionais por suicídios. Quase metade dos apostadores de risco no Brasil já se encontra endividada, e cerca de 52% continuam jogando mesmo após sofrerem perdas significativas, evidenciando o ciclo de dependência gera.
Sintomas
A ludopatia manifesta-se inicialmente pela perda total de controle, onde o indivíduo não consegue interromper o ciclo de apostas mesmo após sofrer perdas financeiras devastadoras. Para manter o mesmo nível de adrenalina e satisfação, o jogador passa a sentir necessidade de apostar valores cada vez mais altos, o que invariavelmente leva a mudanças severas de comportamento, como agressividade e alterações frequentes no humor. Todo esse processo é alimentado por uma falsa esperança, uma crença cega de que a "próxima rodada" será a solução definitiva para todos os seus problemas financeiros, criando um círculo vicioso que desemboca em dívidas impagáveis e, em casos extremos, em desvios e crimes.
Justiça e Saúde
Enquanto a CPI avança nos trabalhos para entender como os desvios ocorreram por dez meses seguidos, Adriano permanece em liberdade por colaborar com as investigações e possuir bons antecedentes. Durante a entrevista concedida ao Portal SGC, ele demonstrou profundo arrependimento por ter manchado uma carreira que era motivo de orgulho para sua família e prometeu buscar ajuda profissional de saúde para tratar a compulsão que alegou possuir.
Fernando Pereira - Portal SGC