Se engana quem pensa que os gargalos da mobilidade em Porto Velho se limitam a congestionamentos nos horários de pico. Por trás da lentidão registrada em 2026, há um fenômeno silencioso e estrutural: a explosão do número de motocicletas nas ruas, que transformou a capital rondoniense em um dos epicentros da violência no trânsito da Amazônia Legal.
Entre 2010 e 2014, período analisado por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) em parceria com a Universidade de Taubaté (UNITAU), a taxa de incidência de acidentes com motos por habitante atingiu seu pico em 2011, chegando a 1.082 ocorrências para cada 100 mil habitantes . Para efeito de comparação, esse índice supera os patamares registrados em capitais historicamente mais violentas do Sul e Sudeste na mesma época.
O estudo, publicado na Revista Brasileira de Medicina do Tráfego, concluiu que os números eram compatíveis com uma "tragédia e moderna epidemia urbana", com coeficiente de letalidade variando de 8,2 a 13 mortes por 100 mil habitantes durante o quinquênio . Em 2010, o pico da curva, o coeficiente de mortalidade por habitante alcançou 12,4/100 mil, patamar que, à época, colocava a capital de Rondônia em situação crítica no ranking nacional de segurança viária.
O "boom" das hidrelétricas e a frota esquecida
A origem desse problema não está apenas no presente, mas finca raízes no passado recente de desenvolvimento da região. Entre 2008 e 2014, Porto Velho viveu um choque de população: saltou de 378 mil para 494 mil habitantes, um acréscimo de 116 mil pessoas em apenas seis anos .
Esse crescimento vertiginoso foi puxado pelas obras do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau). Milhares de trabalhadores migraram para a capital, e o modal de transporte de maior acesso e custo-benefício foi a motocicleta.
Os dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RO) da época mostram que o aumento da frota de motos foi desproporcional em relação aos demais veículos . Com o poder público estadual e municipal despreparados para absorver essa demanda repentina — sem planejamento de habitação, vias expressas ou transporte público eficiente —, as motos ocuparam o vácuo da mobilidade, mas a um custo humano altíssimo.
"Os acidentes de trânsito se transformaram numa epidemia em áreas urbanas", alertavam os pesquisadores Heinz Roland Jakobi e Vanessa de Almeida Cruz, observando que o fenômeno era agravado pela "falta de infraestrutura urbana adequada para suportar a alta migração" .
Infraestrutura deficitária e "cidade inteligente" no papel
A percepção da população sobre a precariedade do sistema é corroborada por diagnósticos acadêmicos recentes. Uma pesquisa do tipo survey realizada por estudiosos da UNITAU e publicada na Revista Baru (Pontifícia Universidade Católica de Goiás) revelou que o modelo de mobilidade tradicional ainda vigente em Porto Velho "carece de investimentos e melhorias na infraestrutura no que tange a conservação de ruas e calçadas" .
Os mesmos estudos apontam para a "ineficiência de alguns programas municipais" e destacam que, embora existam diretrizes legais, há pouca efetividade na integração de tecnologias de gestão de trânsito . A falta de sinalização adequada, o asfaltamento insuficiente de vias arteriais e a inexistência quase total de ciclovias seguras são apontados como gargalos crônicos que, aliados ao alto fluxo de motos, elevam exponencialmente o risco de colisões .
A resposta atual da gestão
Diante do caos instalado, a gestão municipal de 2026 tenta reagir. Desde abril de 2025, o DNIT proibiu a circulação de carretas na BR-364 (Avenida Jorge Teixeira) nos horários de pico, medida que visa reduzir a mistura perigosa entre veículos pesados e o tráfego urbano intenso.
Em maio de 2026, a Prefeitura de Porto Velho, por meio da Semtran, anunciou um passo em direção à sustentabilidade. A capital foi inserida no Programa Mutirão Brasil, co-liderado pela rede internacional C40 Cities, para desenvolver um projeto de mobilidade elétrica focado na modernização do transporte coletivo .
Conforme publicado pela assessoria da prefeitura, o prefeito Léo Moraes destacou que "por muito tempo, nossa população enfrentou dificuldades nessa área", reconhecendo o déficit histórico. A proposta prevê a implantação gradual de ônibus elétricos, buscando fontes de financiamento internacionais . Contudo, especialistas apontam que, sem uma reestruturação do espaço viário e campanhas intensivas de direção defensiva (sobretudo para motociclistas), a substituição da matriz energética não resolverá, por si só, o problema da letalidade.
Os dados falam mais alto
Para se ter uma dimensão do desafio, basta olhar para o estoque de veículos. Somando os dados recentes do Detran-RO, a frota de Porto Velho ultrapassou os 350 mil veículos. E, assim como ocorreu na época das hidrelétricas, as motocicletas seguem dominando as estatísticas de acidentes envolvendo vítimas fatais.
Enquanto o asfalto da Avenida Jorge Teixeira, da Guanabara e da Jatuarana ferve nos horários de pico, a cidade convive com uma herança mal resolvida: o rápido processo de motorização sem planejamento. O desafio para a gestão de 2026 é desatar esse nó histórico que une desenvolvimento econômico, mobilidade precária e perda de vidas no trânsito.
Natália Figueiredo - Portal SGC