Presente em casas, academias e até consultórios de fisioterapia, a bola de tênis ganhou espaço muito além do esporte. Utilizada para aliviar dores musculares e reduzir tensões no corpo, a prática, no entanto, não é indicada para todos os casos. Segundo o médico ortopedista e traumatologista do Hospital Mater Dei Goiânia, Fabrício Cardoso Leão, o recurso pode ajudar em situações específicas, mas também pode agravar quadros quando usado de forma inadequada.
Entenda
• A bola de tênis atua na liberação miofascial e não "descomprime" nervos;
• O alívio costuma ser temporário e depende da causa da dor;
• Nem todas as regiões do corpo podem ser estimuladas com segurança;
• O uso não substitui fisioterapia nem avaliação ortopédica.
Quando a bola pode ajudar — e quando não
O uso da bola de tênis nos glúteos é comum entre pessoas que sentem dor na região lombar ou irradiada para a perna. De acordo com Fabrício Leão, o efeito positivo depende da origem do desconforto.
"Ela pode ajudar em casos de síndrome do piriforme, pontos-gatilho miofasciais ou aumento de tensão muscular local, sem compressão real do nervo", explica.
Nesses quadros, a pressão da bola reduz a tensão muscular que pode irritar o nervo de forma secundária.
Por outro lado, dores causadas por hérnia de disco, estenose do canal vertebral ou artrose facetária não se beneficiam da técnica. "Nesses casos, o problema é estrutural, não muscular, e a bola não resolve", alerta o especialista. O uso inadequado pode, inclusive, piorar o quadro, especialmente se houver dor irradiada, dormência ou sensação de choque elétrico.
Dos pés para cima: efeitos em cadeia
Rolar a bola sob o pé, prática comum para quem sofre com fascite plantar, pode trazer benefícios indiretos para outras regiões do corpo. Isso ocorre porque a fáscia plantar faz parte da cadeia miofascial posterior. "Ao reduzir a tensão no pé, é possível melhorar a mobilidade do tornozelo e diminuir sobrecargas na panturrilha, o que reduz compensações ao longo do corpo", afirma Leão.
Há evidência científica moderada para o alívio de curto prazo em casos de fascite plantar e dor miofascial. Já em situações de esporão calcâneo doloroso, o cuidado deve ser redobrado, pois a pressão excessiva pode agravar a dor.
Atenção redobrada na região lombar
Na lombar, o uso da bola não é liberado para todos. Segundo o ortopedista, ela é indicada apenas em casos de lombalgia mecânica leve e tensão muscular sem sinais neurológicos. Pacientes com hérnia de disco associada à dor irradiada ou com artrose lombar mais avançada, em geral, devem evitar a técnica.
"A pressão direta pode aumentar a inflamação e provocar espasmo muscular defensivo", explica.
Mesmo quando segura, a melhora costuma ser momentânea. Ganhos reais de flexibilidade dependem da associação com alongamentos ativos, fortalecimento muscular e correção dos padrões de movimento.
Postura, respiração e costas
A liberação da musculatura peitoral com a bola pode ajudar a reduzir a tensão anterior do tronco, facilitando a abertura do tórax e melhorando a consciência postural. Isso também favorece a respiração, ao permitir maior expansão da caixa torácica. No entanto, o efeito não é definitivo.
"Sem fortalecer músculos como trapézio inferior, romboides e serrátil anterior, os ombros tendem a voltar à posição projetada", destaca Leão.
Na parte superior das costas e nos ombros, a bola pode aliviar os chamados "nós musculares", relacionados a pontos-gatilho miofasciais. Ainda assim, a melhora da postura só ocorre com fortalecimento, ajustes ergonômicos e mudança de hábitos.7
Ferramenta auxiliar, não solução
Para o especialista, o ponto central é entender o papel da bola de tênis no cuidado com o corpo. "Ela não substitui fisioterapia nem acompanhamento ortopédico. É uma ferramenta auxiliar, paliativa, que pode complementar o tratamento correto", reforça.
Dor irradiada intensa, formigamento persistente, fraqueza muscular, dor noturna ou ausência de melhora após alguns dias são sinais de alerta. Nessas situações, a orientação é interromper o uso e procurar um especialista para avaliação adequada da coluna e do quadril.
A bola de tênis pode ser uma aliada no alívio de dores musculares, desde que bem indicada e usada com moderação. Não corrige problemas estruturais, não "descomprime" nervos e não substitui diagnóstico. Quando aplicada sem critério, o que parece simples pode se tornar um risco à saúde.
Camila Santos - Metrópoles