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iCS reúne jornalistas e especialistas para debater economia do clima e preparação para a COP30

Segunda edição do seminário "A Socioeconomia do Clima" trouxe discussões sobre transição energética, financiamento climático e federalismo ambiental


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Crédito: Reginaldo Pimenta

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Especialistas e jornalistas de diferentes estados do país se reuniram na terça-feira (26), no Rio de Janeiro, para a segunda edição do seminário "A Socioeconomia do Clima", promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS). O encontro, evento paralelo à programação da Rio Climate Action Week, trouxe debates sobre transição energética, financiamento de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), federalismo climático, adaptação e novas estratégias de desenvolvimento para o Brasil. Com a participação de 17 jornalistas convidados e de palestrantes, o seminário buscou ampliar o alcance das discussões sobre a agenda climática e qualificar a cobertura da imprensa em torno dos desafios e oportunidades que o país terá nos próximos meses, em especial na preparação para a COP30, marcada para novembro em Belém (PA).


Na abertura do seminário, Victoria Santos, gerente de Transição Energética, Industrial e de Transportes do iCS, apresentou o conceito de powershoring, definido como a realocação de atividades industriais intensivas em energia para regiões onde as fontes renováveis são abundantes e acessíveis. A proposta tem ganhado espaço no debate internacional como uma resposta simultânea à urgência da descarbonização global e à necessidade de criar novas bases de competitividade econômica e desenvolvimento local. No caso brasileiro, o conceito se conecta diretamente com a realidade de uma matriz elétrica composta em 87% por fontes renováveis e com a oportunidade de expansão em setores como a energia eólica e solar, que ainda exploram apenas uma fração do seu potencial.

Além da energia limpa em escala, o país reúne vantagens como custos mais competitivos em comparação ao Norte Global, infraestrutura portuária que facilita a exportação e cerca de 40 milhões de hectares de áreas degradadas que podem ser aproveitadas de forma sustentável. Estudo realizado pela PwC em parceria com a Abrace estima que a agenda de transição energética, da qual o powershoring é parte, pode atrair até R$ 1 trilhão em investimentos para o Brasil nas próximas décadas. Nesse cenário, a Região Nordeste desponta como protagonista. Já consolidada como principal pólo de expansão das energias renováveis no país, reúne condições para renovar sua estrutura industrial, integrar cadeias de valor locais e ampliar a competitividade econômica regional, com impactos significativos em geração de empregos e inclusão social.

— O Brasil tem uma matriz predominantemente renovável, um custo energético competitivo e um enorme potencial de expansão em energias limpas. Isso nos permite pensar em cadeias produtivas mais sustentáveis e em uma reindustrialização que aproveite nossas condições únicas. Temos como liderar a transição energética, mas para transformar esse potencial em realidade precisamos acelerar políticas públicas, criar parcerias público-privadas e garantir segurança regulatória e financeira para atrair investimentos — afirmou Victoria Santos.

Financiamento climático

A segunda apresentação foi conduzida por Daniel Contrucci, cofundador e co-CEO da Climate Ventures, que discutiu como viabilizar financeiramente projetos de Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Contrucci destacou que o Brasil ocupa posição estratégica nesse campo, já que reúne biodiversidade, extensão territorial e um enorme potencial para liderar a transição para uma economia verde. Segundo ele, para que o financiamento avance, é preciso garantir segurança jurídica, ampliar a integração entre os diversos atores e desenvolver novos mecanismos que atraiam recursos privados e públicos. Contrucci lembrou ainda que o debate internacional, especialmente no contexto da COP30, abre espaço para que o Brasil assuma protagonismo na criação de modelos de financiamento climático de longo prazo.

Para destravar o financiamento para SbN, Contrucci detalhou o funcionamento do Nature Investment Lab (NIL), fundado em 2024 por Banco do Brasil, BNDES, GFANZ, iCS e Instituto Itaúsa e secretariado pela Climate Ventures. O NIL atua em três frentes de trabalho para alavancar esses negócios: melhorias para o ambiente político e regulatório; mecanismos de inovação financeira para superar obstáculos e atrair capital; e padronização e redução de custos de transação. Cinco negócios selecionados neste ano pelo laboratório por meio de uma chamada pública já estão recebendo assessoria para romper esses gargalos: Caaporã, Camocim Organic, INOCAS, Radix Florestal e S.Oleum. Juntos, esperam captar cerca de R$ 400 milhões em investimentos para viabilizar projetos de SbN que deverão beneficiar 15 mil famílias.

— O Brasil tem uma das maiores oportunidades do mundo para demonstrar que conservar e restaurar a natureza não é apenas uma obrigação ambiental, mas também uma estratégia econômica. Para isso, precisamos acelerar a construção de instrumentos que transformem boas ideias em projetos financiáveis e de impacto real — afirmou Daniel Contrucci.

Um novo modelo de desenvolvimento

O economista Braulio Borges, da LCA Consultores e pesquisador da iniciativa Esse Tal do Efeito Estufa, trouxe ao seminário uma reflexão sobre como as mudanças climáticas já impactam a economia e o bem-estar social. Borges lembrou que o aquecimento global é um fato consolidado pela ciência e que o Brasil responde sozinho por cerca de um terço do desmatamento global desde os anos 1990, o que o coloca entre os principais emissores de gases de efeito estufa.

Os impactos econômicos já são concretos: desastres naturais custam anualmente cerca de US$ 160 bilhões ao mundo. No Brasil, entre 25% e 30% do território enfrentaram secas recorrentes na última década, o que pressiona a produção agropecuária e encarece os alimentos, um fenômeno relativamente novo, mas que se intensificou nos últimos 15 anos. A redução dos chamados "rios voadores" também ameaça a oferta de eletricidade renovável e barata, e plataformas como a AdaptaBrasil já projetam cenários de risco climático em cada município do país.

Caso nada seja feito, destacou, a ampla maioria dos estudos prospectivos aponta para perdas crescentes no PIB mundial, da ordem de 6% a 7% nos próximos anos, com efeitos mais severos nos países do Sul Global. Para enfrentar esse cenário, medidas de mitigação e adaptação precisam caminhar juntas, com políticas que incluam a transição energética, o combate ao desmatamento e a recuperação de ecossistemas.

Nesse contexto, foi apresentado o Hub de Economia e Clima, iniciativa do iCS que busca integrar pesquisadores nacionais e internacionais, fortalecer a produção de estudos aplicados e aproximar ciência, economia e política. A plataforma pretende gerar conhecimento para orientar governos, setor privado e sociedade civil na construção de um modelo de desenvolvimento sustentável.

— A crise climática já provoca efeitos visíveis sobre a economia, e os próximos anos serão decisivos para definir sua intensidade. O Brasil pode transformar sua vantagem comparativa em liderança global, mas isso exige políticas públicas fundamentadas em evidências e uma integração efetiva entre pesquisa, economia e tomada de decisão — afirmou Braulio Borges.

Federalismo climático e adaptação

O último painel foi apresentado por Walter De Simoni, gerente de Política Climática e Arcabouço Institucional do iCS, que discutiu os desafios e oportunidades do chamado federalismo climático. Ele destacou que, embora os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris, as NDCs, sejam definidos pelo Governo Federal no contexto internacional, sua efetivação só ocorre quando chegam aos territórios, passando pelos estados e municípios.

De Simoni lembrou que a Constituição estabelece competência comum para União, estados e municípios em diversas áreas ligadas à agenda climática, como proteção ambiental, saneamento, habitação e combate à pobreza. No entanto, na prática, há assimetrias significativas de recursos técnicos, financeiros e institucionais que dificultam a implementação de políticas consistentes em nível local.

Os estados, em especial, acabam sendo o "elo perdido" desse processo, mesmo diante de experiências relevantes como o Consórcio Brasil Verde, que reúne governadores em torno da agenda climática, e iniciativas estaduais de incentivo à energia renovável e à produção sustentável. O especialista também apresentou exemplos de políticas já em curso, como programas de recuperação de pastagens degradadas, incentivo ao uso de bioinsumos, ampliação de florestas plantadas e estímulo à geração solar.

Walter destacou como os desastres climáticos resultam da combinação de múltiplos fatores e apresentou a equação "Desastre = (Vulnerabilidades + Exposição a perigos) / Capacidades", adaptada das Nações Unidas. A fórmula evidencia que não basta considerar apenas a intensidade dos eventos extremos: os impactos dependem igualmente do grau de vulnerabilidade das populações e da capacidade institucional de resposta. Para ele, fortalecer a cooperação federativa é condição essencial para transformar compromissos em ação concreta.

— O federalismo é uma das grandes chaves para a gente conseguir destravar a questão das mudanças climáticas. As metas climáticas não se realizam em Brasília, mas nos territórios. Para que o Brasil cumpra seu papel global e proteja sua população dos impactos já em curso, precisamos de coordenação entre União, estados e municípios, fortalecendo capacidades locais e repensando o federalismo climático — afirmou Walter De Simoni.

Sobre o Instituto Clima e Sociedade

O iCS é uma organização filantrópica que apoia o enfrentamento das mudanças climáticas, com foco no Brasil, por meio do emprego de um rol amplo de abordagens e ferramentas que vão desde o apoio institucional e financeiro a organizações sem fins lucrativos, passando por apoio ao desenvolvimento de pesquisas técnicas e científicas, formação de redes e desenvolvimento de capacidades em diferentes segmentos econômicos da sociedade brasileira.

Com uma rede relevante e diversa de parceiros e stakeholders, o iCS fomenta a construção de pontes entre diferentes setores e a promoção de diálogos e trocas entre ecossistemas, buscando ampliar a conexão e reduzir as abordagens em silos. O Insituto Clima e Sociedade entende que essa abordagem sistêmica é essencial para que a descarbonização da economia brasileira se traduza em oportunidades de desenvolvimento socioeconômico do país.

Criado logo após o Acordo de Paris, em 2015, o iCS, em conjunto com parceiros e donatários, vem construindo um acervo de experiências e conhecimento útil para o avanço da agenda climática e a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.


Assessoria


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