Brasil

Morre Mãe Carmen, ialorixá do Terreiro do Gantois, aos 98 anos, em Salvador

Líder espiritual estava internada havia duas semanas e faleceu na sexta-feira (26), dia consagrado a Oxalá; sepultamento ocorre neste sábado (27)


Imagem de Capa

Divulgação

Instagram Facebook Youtube Twitter

ACESSE NOSSAS REDES SOCIAIS
PUBLICIDADE

Morreu na madrugada desta sexta-feira (26), em Salvador, aos 98 anos, Mãe Carmen, ialorixá do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, conhecido como Terreiro do Gantois, uma das casas de candomblé mais antigas e influentes do Brasil. A liderança religiosa estava internada havia cerca de duas semanas no Hospital Português, onde tratava uma forte gripe, após agravamento do quadro com sintomas respiratórios associados a uma infecção viral. A morte foi confirmada pelo terreiro por meio de nota oficial divulgada nas redes sociais.

Filha mais nova de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a histórica Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen nasceu em 1926, embora tenha sido registrada oficialmente em 1928. Ela completaria 99 anos na próxima segunda-feira (29), data que já constava no calendário interno do terreiro como momento de celebração.

Iniciada no candomblé ainda na infância, aos 7 anos de idade, Mãe Carmen construiu toda a sua trajetória religiosa no próprio Gantois. Em 2002, assumiu a liderança da casa, tornando-se a quinta ialorixá à frente do terreiro fundado em 1849. Ao longo de 23 anos no comando espiritual, foi responsável por preservar ritos, transmitir saberes ancestrais e conduzir o terreiro em um período marcado por transformações sociais e maior visibilidade das religiões de matriz africana.

Durante sua gestão, o Gantois consolidou-se como referência religiosa, cultural e institucional, recebendo pesquisadores, artistas, representantes políticos e organismos internacionais interessados na história e na contribuição do candomblé para a formação da identidade brasileira. Entre os filhos de santo do terreiro estão nomes como Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano Veloso.

O reconhecimento à atuação de Mãe Carmen ultrapassou o campo religioso. Em 2010, ela recebeu da Unesco a Medalha dos Cinco Continentes ou da Diversidade Cultural, em reconhecimento ao trabalho de preservação das tradições afro-brasileiras e da promoção do diálogo inter-religioso. Em 2011, foi homenageada com a música "A Força do Gantois", composta por Nelson Rufino, que se tornou referência musical ligada ao terreiro.

Em maio de 2023, a ialorixá foi agraciada com a Comenda Maria Quitéria, concedida a mulheres que se destacam por ações de impacto social na Bahia. A honraria reconheceu sua contribuição à preservação da cultura negra, da religiosidade de matriz africana e do fortalecimento comunitário.

Além da dimensão espiritual, Mãe Carmen apoiou ações socioeducativas desenvolvidas no Gantois, que passaram a incluir cursos, oficinas culturais, atividades pedagógicas, ações de memória e iniciativas voltadas à valorização da identidade afro-baiana. O terreiro tornou-se um espaço de referência para a comunidade local, estudantes, pesquisadores e visitantes.

Na nota oficial, o terreiro informou que a morte representa o retorno da ialorixá ao Orun, o plano espiritual na cosmovisão iorubá, destacando o simbolismo do falecimento ocorrido em uma sexta-feira, dia dedicado a Oxalá. O sepultamento está previsto para este sábado (27), às 11h30, no cemitério Campo Santo. Antes, o corpo deve ser levado ao Terreiro do Gantois, onde serão realizados os rituais tradicionais de despedida.


muitainformacao


NOTÍCIAS RELACIONADAS

Mais lidas de Brasil veja mais
Últimas notícias de Brasil veja mais