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Rabetas, rios e frutos: o movimento invisível da Amazônia


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Em algumas regiões aqui da Amazônia pequenos barcos (rabetas) chegam trazendo peixes, açaí, etc, outros saem levando visitantes para mais um dia de pesca esportiva. É nesse cotidiano que começa a tomar forma uma ideia que, à primeira vista, parece distante. 

Ao longo das últimas décadas a discussão sobre a Amazônia seguiu um roteiro conhecido. De um dos lados quem defendia de forma absoluta a total preservação da floresta sem quaisquer possibilidades econômicas. De outro, a defesa de que a região era a nova fronteira de expansão econômica do Brasil. E no meio deste discurso polarizado, a realidade e grande parte da população local ficava em segundo plano. 

Nos últimos anos, no entanto, se percebe que existe uma busca por um caminho que possibilite a geração de renda para a população e a preservação ambiental: a economia da floresta. 

O conceito em um primeiro momento parece um pouco sofisticado, mas se fundamenta em algo simples. A floresta não pode ser um patrimônio intocável, nem tampouco ser encarada como um obstáculo ao desenvolvimento, ela pode ser parte da atividade econômica. 

Um exemplo é o manejo florestal. Um projeto ambiental elaborado por especialistas e aprovado, monitorado e fiscalizado por órgãos ambientais que permite a exploração seletiva de árvores, respeitando o ciclo de regeneração da área e mantendo a floresta em pé. 

Em outra frente desperta-se o interesse econômico da biodiversidade. A Amazônia tem milhares de espécies vegetais ainda pouco conhecidas e exploradas economicamente. Alguns produtos mostram como esse potencial pode se transformar em realidade. O açaí que hoje aparece em cardápios sofisticados no exterior ainda é batido de forma artesanal, todos os dias, em casas simples espalhadas ao longo dos rios e na periferia das cidades. 

A castanha-do-brasil é coletada há décadas na floresta e exportada para diversos países. Outros produtos começam a ganhar espaço, como o cupuaçu, o cacau, os óleos vegetais utilizados pela indústria cosmética e uma série de frutos e sementes que ainda possuem grande potencial de mercado. 

Já a pesca presente na vida diária dos ribeirinhos também integra essa nova realidade. Em muitas comunidades essa atividade representa uma importante fonte de renda e subsistência de grande parte da população, mas pode e deve ser explorada como atividade turística atraindo visitantes de diferentes partes do Brasil e até do exterior. 

Uma nova e promissora opção é o mercado de créditos de carbono. A ideia surgiu a partir do protocolo de Quioto (1997) estabelecendo metas de redução de gases de efeito estufa e ganhou força após o acordo de Paris (2015). O Brasil aprovou recentemente a Lei 15.042/2024 que estabelece o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) em fase de implantação. 

De forma simples o crédito de carbono funciona como um sistema de compensação f inanceira a partir do controle das emissões de dióxido de carbono por atividades, empresas e indústrias valorizando financeiramente aquelas atividades mais sustentáveis e incentivando a preservação ambiental a partir de projetos ambientais de recuperação e manutenção de florestas que possam fornecer créditos para as empresas mais poluentes no Brasil e no mundo.  

Todas essas atividades têm uma característica única, dependem diretamente da floresta preservada, ou seja, a manutenção do ambiente natural passa a ser parte do próprio processo produtivo.  

Transformar essa possibilidade em realidade, no entanto, exige mais do que boas ideias. Exige incentivo financeiro e a disposição para enfrentar desafios antigos como: insegurança fundiária, dificuldades logísticas, ausência de infraestrutura, etc. 

Apesar de tímida, aos poucos, andando pela Amazônia é possível identificar alguns projetos que valorizam e incentivam a manutenção da floresta. Para quem acompanha de perto, no dia a dia, essas iniciativas ainda são pequenas, mas já apontam uma mudança concreta de direção, alimentando a esperança de uma nova percepção sobre o futuro da Amazônia. 

A Amazônia não se resume a uma disputa ideológica e política, deve ser encarada como uma importante área ambiental de interesse mundial, mas também um importante ativo econômico brasileiro que pode ser explorado de forma sustentável para gerar renda para todos os brasileiros.  

O futuro da Amazônia não está apenas nos grandes debates internacionais ou nas disputas políticas, mas no movimento quase invisível das rabetas cruzando os rios todos os dias levando peixes, açaí, visitantes e a esperança da necessária preservação da região para nossos filhos. 

É esse, sem dúvida, o verdadeiro caminho para conciliar a preservação com o desenvolvimento da Amazônia. 


Fabrício Camargo


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