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Projeto binacional pode reforçar matriz elétrica, mas precisa equilibrar impactos socioambientais

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A discussão sobre a possibilidade de uma nova usina hidrelétrica no Rio Madeira, desta vez uma binacional em cooperação entre Brasil e Bolívia, traz à tona questões que vão além da simples ampliação da matriz energética. O tema envolve integração regional, sustentabilidade, segurança no abastecimento e os impactos sociais e ambientais de um empreendimento de grande porte.

Projetos dessa dimensão têm histórico complexo. Itaipu, frequentemente citada como referência, demandou anos de negociações diplomáticas, estudos técnicos e grandes investimentos até entrar em operação. A experiência mostra que, embora os benefícios sejam expressivos, os desafios também são significativos.

A proposta de mais uma usina no Rio Madeira — a terceira — se insere em um momento em que as fontes renováveis, como solar e eólica, ganham espaço, mas ainda não oferecem a regularidade necessária para sustentar sozinhas o sistema elétrico do país. Nesse contexto, as hidrelétricas continuam sendo fundamentais para garantir estabilidade, mesmo que impliquem dilemas ambientais e sociais.

A cooperação internacional pode fortalecer laços econômicos e diplomáticos. Ao mesmo tempo, requer acordos sólidos que definam responsabilidades, repartição de custos e divisão da energia gerada. A Bolívia, país com vastos recursos hídricos, poderia encontrar nessa parceria uma oportunidade de ampliar sua presença no mercado regional do setor.

Do lado brasileiro, a iniciativa dialoga com a necessidade de diversificar a matriz e consolidar o papel estratégico da Amazônia no fornecimento de energia elétrica. No entanto, há riscos que não podem ser ignorados. Os impactos ambientais de grandes usinas na região amazônica são conhecidos e exigem um planejamento que considere preservação da biodiversidade e proteção das comunidades locais.

Um projeto dessa escala demanda equilíbrio entre desenvolvimento e responsabilidade socioambiental. Estudos aprofundados precisam avaliar não apenas a viabilidade econômica, mas também os efeitos sobre a fauna, a flora e os modos de vida tradicionais.

Outro ponto crucial é o tempo de maturação. Uma hidrelétrica binacional não se concretiza em curto prazo. Exige negociações diplomáticas, análises jurídicas e definições financeiras que podem atravessar governos. A paciência estratégica é parte do processo.

O debate sobre mais uma usina no Rio Madeira deve, portanto, ser conduzido com transparência e participação. É preciso que sociedade, especialistas e comunidades tenham voz no processo, assegurando que eventuais ganhos não sejam obtidos à custa de danos irreversíveis.

Se confirmada, a hidrelétrica poderá se tornar um marco de integração e cooperação internacional. Mas para que esse resultado seja alcançado, será necessário conjugar interesse político, rigor técnico e responsabilidade ambiental.

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