A introdução de cotas pela China para importação de carne bovina brasileira a partir de 2026 deve marcar uma virada no mercado, com impacto direto sobre preços e margens do setor, segundo análise do Citibank. Após anos como principal motor de rentabilidade das exportações, o país asiático tende a deixar de ser um vetor de sustentação para se tornar um fator de pressão.
Em relatório divulgado no fechamento do mercado desta segunda-feira (6), a instituição classifica a China como a "espinha dorsal da rentabilidade da carne bovina brasileira", ao mesmo tempo que alertou para uma transformação dos negócios negativa por causa do consumo rápido das cotas. Com cerca de 55% dos embarques brasileiros destinados à China, a mudança é classificada pelo banco como um "reajuste estrutural", e não pontual. Cálculos do Citibank indicam que 33,6%, ou um terço da cota anual, já foram usados nos dois primeiros meses do ano, o que reforça a visão de esgotamento por volta de julho.
Na prática, o cenário desenha um primeiro semestre ainda sustentado pela demanda chinesa, seguido por um segundo semestre mais frágil. Isso porque, uma vez atingido o limite, as exportações fora da cota passam a enfrentar tarifas elevadas, reduzindo drasticamente a competitividade no mercado chinês.
O efeito mais imediato deve ser o redirecionamento de cerca de 600 mil toneladas de carne bovina para outros destinos. Sem um mercado com capacidade equivalente de absorção e preços semelhantes aos da China, esse volume tende a pressionar cotações internacionais e também o mercado doméstico.
"O ajuste não deve ser gradual, mas sim abrupto", aponta o relatório do Citi. A concentração das exportações no início do ano pode se refletir na intensificação desse movimento, o que vai se tornar análise daqui algumas semanas. Até agora, o banco já trabalha com dois fatores de pressão: maior risco de queda de preços e compressão de margens ao longo do segundo semestre.
Entre as empresas, o Citi destaca maior exposição da Minerva, mais dependente das exportações para a China, enquanto JBS e Marfrig aparecem relativamente mais protegidas, embora também afetadas indiretamente pela dinâmica de preços.
Retenção de matrizes e febre aftosa
Mesmo com uma expectativa de queda entre 4% e 5% na produção brasileira, devido ao ciclo de retenção de matrizes, o banco avalia que o recuo não será suficiente para compensar o impacto das cotas. Parte dessa redução é absorvida internamente, limitando o efeito sobre o excedente exportável, ressaltam os pesquisadores do banco e autores do relatório, Renata Cabral e Luiz Felipe Terzariol.
Além disso, a perda de espaço na China tem peso adicional por se tratar do mercado com maior liquidez e disposição a pagar. Sem esse destino, os embarques tendem a migrar para praças menos remuneradoras ou para o consumo interno.
O banco também avalia os efeitos do recente surto de febre aftosa, considerado irrelevante em termos de oferta, mas com potencial de influenciar decisões de política comercial. Eventuais restrições sanitárias poderiam afetar fluxos de exportação, enquanto um aumento da demanda chinesa por importações, em caso de impacto interno, poderia aliviar parcialmente as cotas. Ainda assim, o Citi vê esse fator como secundário.
Mesmo com possíveis compensações, como ajustes de política ou dinâmica de estoques, o banco avalia que o balanço de riscos permanece negativo. A substituição de consumo na China tende a favorecer proteínas mais baratas, como frango e suínos, limitando o espaço para a carne bovina.
O cenário expõe assimetria: enquanto o impacto negativo das cotas é claro e imediato, os potenciais fatores de alívio são incertos e insuficientes para reverter a tendência de ajuste no mercado ao longo de 2026, destaca o relatório.
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