A Meta, empresa dona do Instagram, anunciou que passará a enviar alertas a pais e responsáveis sempre que adolescentes realizarem buscas repetidas por termos relacionados a suicídio e automutilação na plataforma .
O recurso já está disponível nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália, e chega ao Brasil na mesma etapa de expansão que inclui Índia e União Europeia .
Como funciona o alerta
As notificações são enviadas exclusivamente para responsáveis que ativaram a ferramenta de supervisão parental no Instagram. O aviso pode chegar por e-mail, SMS, WhatsApp ou diretamente pelo aplicativo .
Segundo a empresa, a grande maioria dos adolescentes não realiza esse tipo de pesquisa. Quando ocorre, a plataforma já bloqueia os resultados e direciona o menor para canais de apoio .
A Meta também anunciou na semana anterior que usará inteligência artificial para verificar a idade dos usuários. A tecnologia analisa características como altura e estrutura óssea para identificar contas de pessoas com menos de 13 anos, sem utilizar reconhecimento facial .
Prevenção exige rede de proteção
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a medida é um avanço, mas ressaltam seus limites.
A psicóloga e neuropsicóloga Elizete Gonçalves Silva afirma que nenhuma instituição consegue proteger uma criança ou adolescente sozinha. Para ela, a prevenção acontece quando família, escola, saúde, assistência social, Judiciário e comunidade atuam em conjunto.
O psicólogo Deusdedi Alves também considera positiva a iniciativa do Instagram, mas demonstra preocupação com a fiscalização. Segundo ele, de nada adianta determinar regras se não houver acompanhamento efetivo.
Os dois especialistas são ouvidos na reportagem com base em suas atuações na área de saúde mental infantojuvenil.
Dados sobre violência digital no Brasil
O país ocupa atualmente a quinta posição no ranking global de denúncias relacionadas a páginas que distribuem conteúdo de abuso sexual infantil. Entre 2022 e 2024, o Brasil saltou da 27ª para a quinta colocação .
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que cerca de 300 milhões de crianças em todo o mundo foram vítimas de exploração e abuso sexual por meio da internet apenas em 2024 .
No âmbito nacional, o Ministério Público Federal registrou cerca de mil novas ocorrências de investigação de abuso de crianças e adolescentes na internet ao longo de 2024. Diariamente, a entidade recebe de 400 a 500 notícias-crime relacionadas ao tema .
Estudo do UNICEF aponta que quase um em cada seis meninos e meninas entre 10 e 19 anos no Brasil vive com algum transtorno mental, parcela mais exposta ao risco de automutilações, depressão e suicídio .
Violência psicológica no ambiente digital
A violência psicológica no contexto digital foi outro ponto destacado pelos especialistas. Ao contrário do que ocorre na violência presencial, os ataques virtuais não cessam quando a criança ou adolescente sai da escola — continuam dentro do quarto, no telefone, acessíveis a qualquer momento.
Essa exposição constante amplifica o sofrimento psicológico. Adolescentes que já enfrentam condições como rejeição, bullying, tristeza profunda ou quadro depressivo tornam-se ainda mais vulneráveis a conteúdos que romantizam ou normalizam a autolesão.
Sinais de alerta para pais e responsáveis
Psicólogos consultados listam comportamentos que podem indicar sofrimento emocional entre jovens: isolamento no quarto com porta fechada, recusa em fazer refeições com a família, irritabilidade constante, ansiedade excessiva e queda no desempenho escolar.
A orientação para pais que receberem a notificação do Instagram é não entrar em pânico e evitar reações de julgamento ou acusação, que tendem a afastar ainda mais o jovem que está pedindo ajuda.
O caminho indicado é abrir um diálogo seguro: perguntar o que está acontecendo, o que o filho está sentindo e oferecer apoio sem punição.
Marco legal e responsabilidades
O Brasil conta com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como principal instrumento legal de proteção. A norma prevê crimes de abuso sexual infantil em meio virtual entre os artigos 240 e 241-E, caracterizando condutas como produção, comercialização, transferência e armazenamento de conteúdo ilícito por qualquer meio de comunicação .
Em maio de 2025, entrou em vigor o chamado "ECA Digital" (Lei nº 15.211/2025), que estabelece mecanismos de responsabilização das plataformas digitais, prevendo barreiras etárias, classificação indicativa e deveres relacionados à segurança online de crianças e adolescentes .
O Ministério Público Federal, por meio do Grupo de Atuação Especial no Combate aos Crimes Cibernéticos (Gaccti), criado em 2024, atua na investigação de delitos cometidos no ambiente virtual e defende uma legislação mais robusta com maior responsabilização de provedores de serviços digitais .
Canais de ajuda
O UNICEF mantém o "Pode Falar", canal de ajuda em saúde mental anônimo e gratuito para jovens de 13 a 24 anos .
Denúncias de abuso online contra crianças e adolescentes podem ser realizadas de forma anônima pelo site da SaferNet Brasil, organização que atua em parceria com o Ministério Público Federal desde 2006 .
O Disque 100 também recebe denúncias de violações de direitos humanos, incluindo casos que envolvem crianças e adolescentes.
*Com informações de Agência Brasil, Ministério Público Federal e UNICEF
Natália Figueiredo - Portal SGC