O dólar iniciou o pregão em alta nesta quinta-feira (18/6). Às 10h50, ele subia 1,04% em relação ao real, cotado a R$ 5,16. Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), registra, no mesmo horário, avanço de 0,24%, aos 168,8 mil pontos.
Os mercados de câmbio e ações operam nessa sessão numa espécie de contraponto de tensões. Por um lado, houve forte alívio no front geopolítico, como reflexo da assinatura de um acordo de cessar-fogo entre Washington e Teerã. Por outro, o estresse disparou com as posturas adotadas pelos bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil.
Na quarta-feira (17/6), os BCs americano e brasileiro cumpriram o script previsto pelos agentes econômicos. O Federal Reserve manteve os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% e o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC do Brasil, cortou a taxa básica do país, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
Ruídos nos comunicados
Os comunicados emitidos pelos dois bancos centrais depois das decisões, contudo, provocaram turbulência entre os analistas. Nos Estados Unidos, contando com a estreia de Kevin Warsh no comando do Fed, a mensagem foi de que os juros permanecerão elevados por mais tempo. No Brasil, o Copom apontou uma inequívoca piora do cenário inflacionário, mas, ainda assim, manteve aberta a discussão sobre novas reduções da Selic.
No caso americano, a projeção da maioria dos dirigentes do Fed foi favorável a uma alta dos juros ainda em 2026. No Brasil, a celeuma deu-se em torno da menção no comunicado do Copom ao "horizonte relevante" da política monetária. "Horizonte relevante", grosso modo, é o termo usado pelo BC para identificar o período em que os juros terão maior efeito sobre a economia.
Mudança de "horizonte"
Até a última reunião do órgão do BC, esse horizonte estava fixado no quarto trimestre de 2027. O comunicado desta quarta-feira, no entanto, faz referência ao primeiro trimestre de 2028.
Na avaliação dos economistas da Warren Investimentos, foi essa alteração do horizonte que permitiu a redução de 0,25 ponto percentual da Selic. "No entanto, com a deterioração observada do cenário, esse alongamento não deve ser suficiente para justificar cortes adicionais", afirmam os especialistas da corretora.
Além disso, o comunicado do Copom incluiu uma menção ao problema fiscal, que não vinha sendo feita nos últimos documentos veiculados pelo órgão do BC.
Análise
Para Paula Zogbi, da Nomad, o movimento de alta do dólar depois da decisão do Copom "reflete uma combinação de cautela doméstica e pressão externa". "Embora o Banco Central tenha reduzido a taxa Selic, o comunicado não se comprometeu com novos cortes e enfatizou a necessidade de monitorar indicadores futuro, além de o BC aumentar sua projeção de inflação", diz. "Além disso, pela primeira vez, o BC citou explicitamente os estímulos à demanda, numa referência ao impulso fiscal eleitoral, como fator de risco inflacionário, além de reconhecer que a inflação corrente superou o limite superior da meta na última leitura."
Zogbi acrescenta que, globalmente, o Fed manteve os juros, numa decisão também considerada dura, especialmente pelas sinalizações de expectativa de aumento da taxa de juros ainda em 2026. "Os juros futuros sobem e o real fica pressionado neste cenário de maior incerteza sobre a trajetória da taxa Selic", afirma a analista.
Metrópoles