O dólar registrou queda de 0,23% frente ao real, cotado a R$ 5,16, nesta terça-feira (30/6). Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), fechou em baixa de 0,68%, aos 172 mil pontos.
Desde a semana passada, ocorre uma troca de guarda entre os fatos que exercem maior influência nos mercados de câmbio e ações. A guerra entre Estados Unidos e Irã está perdendo espaço para o comportamento dos juros tanto na economia americana como na brasileira.
Por isso, os investidores acompanharam com especial interesse a divulgação, nesta terça-feira, de dados sobre a situação do emprego. Isso nos Estados Unidos e no Brasil.
No caso americano, o mercado de trabalho deu mais um sinal de resiliência. Tal condição atua como um reforço para as projeções de uma elevação da taxa básica de juros do país, atualmente fixada no intervalo entre 3,50% e 3,75%, já em setembro, na próxima reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
Vagas nos EUA
Isso porque as vagas de emprego, um indicador da demanda por mão de obra, aumentaram em 9 mil em maio em relação a abril, alcançando 7,594 milhões de postos de trabalho. O número ficou bem acima das expectativas dos analistas. Eles estimavam um total de 7,280 milhões de vagas.
Os dados fazem parte do relatório Jolts (sigla de "Job Openings and Labor Turnover Survey"). O documento foi divulgado pelo Departamento de Trabalho americano.
Vagas no Brasil
No Brasil, a tendência veio na direção oposta. Ou seja, os números foram piores do que o esperado, indicando uma desaceleração do mercado de trabalho, o que pode resultar em novo alívio dos juros básicos, a Selic, atualmente definida em 14,25% ao ano.
No país, foram criados 72.960 postos de trabalho com carteira assinada em maio, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. A expectativa era de abertura de cerca de 120 mil vagas.
O número de maio é o resultado da diferença entre 2.207.303 admissões e 2.134.346 desligamentos. Tal saldo foi 51% inferior ao do mesmo período do ano passado (com 148.992 postos) e representou o pior desempenho do mercado desde 2020.
Dívida pública
No cenário interno, o mercado também acompanhou a divulgação das informações sobre a dívida do Brasil, reunidas pelo Banco Central (BC). Neste caso, os números foram piores do que o esperado.
Eles mostram que a dívida pública atingiu R$ 10,6 trilhões, o equivalente a 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB). O mercado projetava 80,7%.
O resultado também representa o maior patamar em cinco anos da "Dívida Bruta do Governo Geral", que compreende o governo federal e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), além dos governos estaduais e municipais. Em maio de 2021, o maior nível anotado antes do mês passado, ela atingiu 81,4% do PIB.
Petróleo
Com a baixa da tensão no Oriente Médio, o preço do petróleo caiu, fato que também foi relevante para a sessão dos mercados de câmbio e ações. Com isso, a cotação da commodity permaneceu num patamar próximo ao registrado no início da guerra do Oriente Médio, em 28 de fevereiro.
Nesta terça-feira, o barril do tipo Brent, que serve de referência internacional, caiu 1,30%, a US$ 72,95. O tipo West Texas Intermediate (WTI), que baliza o comércio nos Estados Unidos, recuou 1,77%, a US$ 69,50.
"Guerra da Ptax"
A cotação do dólar também foi influenciada nesta terça-feira pela "guerra da Ptax", que ocorre no último dia de todo mês. A Ptax é uma média do preço do dólar em relação ao real, calculada pelo Banco Central (BC). Ela serve de referência para contratos de câmbio.
No fim do mês, empresas e investidores tentam influenciar a cotação da moeda americana para que o resultado lhes seja favorável. Com isso, esses grupos vendem ou compram dólar para puxar o preço para cima ou para baixo, afetando a média final.
Análise
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, aponta os fatores que fazem o Ibovespa se manter distante de retomar as máximas do ano. "Apesar da redução das tensões geopolíticas e do alívio no prêmio de risco externo, o mercado doméstico continua pressionado pela manutenção da curva de juros em patamares elevados, refletindo a perspectiva de juros altos por mais tempo tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos", diz.
Para o economista, a recuperação da Bolsa também esbarra na ausência de fluxo estrangeiro, principal vetor da forte valorização observada nos primeiros meses do ano. "Sem a retomada desse capital, em meio às incertezas sobre a extensão do ciclo de cortes da Selic e aos prêmios ainda elevados incorporados aos títulos de longo prazo, o índice encontra dificuldade para sustentar movimentos mais consistentes de alta, mesmo em um ambiente internacional mais favorável", afirma o analista.
Metrópoles