O ato simples de andar sozinha pela rua ainda representa um desafio diário para muitas mulheres nos centros urbanos. A violência de gênero, que ultrapassa os limites do ambiente doméstico, se manifesta nas calçadas, pontos de ônibus e demais espaços públicos, gerando uma preocupação que acaba limitando o direito básico de ir e vir.
O que deveria representar liberdade se transforma em um exercício de alerta constante. De acordo com relatos, caminhar sozinha passou a exigir planejamento: muitas mulheres relatam evitar ruas escuras, mudar rotas ou simplesmente desistir de sair à noite como estratégia de proteção.
Para a auxiliar de cozinha Claudia Cardoso, a insegurança é uma realidade diária. "Você está sujeita a tudo, a todos os tipos de violência, a todos os tipos de assédio, a todos os tipos de medo. A gente fica com medo. Infelizmente, a gente é vítima todos os dias", desabafa.
A técnica de enfermagem Nitilele Marcela também compartilha da mesma sensação. "Acho que a maioria das mulheres já sofreu algum tipo de violência. Infelizmente, é algo inevitável. A gente cresce ouvindo que não pode usar determinada roupa, não pode andar em determinado lugar, não pode voltar sozinha para casa. É um medo que está sempre perto de mim", afirma.
Rosangela Damasceno, que trabalha com recursos humanos, destaca que o problema atinge todas as mulheres, independentemente da aparência ou vestimenta. "A violência contra a mulher independe da cor, da raça, da idade ou do jeito de se vestir. Basta ser mulher para estar vulnerável. A gente precisa ter cuidado redobrado. Vemos casos todos os dias e sabemos que pode acontecer com qualquer uma de nós", alerta.
A atendente Raiane Débora complementa o relato descrevendo a sensação constante de desconforto. "Você nunca se sente completamente segura, mesmo em lugares movimentados. Sempre tem um olhar diferente, uma abordagem indesejada. É algo que tira a nossa paz e torna o trajeto algo desgastante e desconfortável", descreve.
A percepção das entrevistadas é corroborada por números e análises de especialistas. A violência contra a mulher nos espaços públicos, manifestada por meio de importunação e assédio, é uma realidade concreta que restringe a liberdade e a autonomia feminina.
Diante desse cenário, especialistas reforçam que o enfrentamento ao problema não pode ser solitário. A orientação é que as mulheres denunciem qualquer tipo de violência. As denúncias podem ser feitas de forma rápida, anônima e gratuita pelo telefone 180, a Central de Atendimento à Mulher, canal oficial para relatar violações e buscar orientação sobre direitos e serviços de apoio.
Natália Figueiredo - Portal SGC