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Voluntariado: o 'S' do ESG que as empresas fingem que não enxergam

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Você já percebeu que, quando o assunto é ESG, as empresas adoram falar do "E"? Painéis solares, reciclagem, metas de carbono, relatórios coloridos. Tudo muito bonito, tudo muito fotogênico. Mas quando chega no "S", aquele pilar que exige olhar para gente — e não para indicadores — o discurso costuma ficar tímido, quase envergonhado. É curioso, porque justamente no "S" está uma das ferramentas mais poderosas e menos exploradas pelas organizações: o voluntariado corporativo.

Sim, voluntariado. Essa palavra que muita empresa ainda trata como se fosse um enfeite de fim de ano, uma ação simpática para postar no LinkedIn, um gesto de boa vontade que não mexe na estrutura do negócio. Só que o voluntariado é tudo, menos isso. Ele é, na verdade, um instrumento de transformação profunda — e não só da comunidade atendida, mas principalmente de quem participa.

O problema é que você ainda vive em um ambiente corporativo que subestima o poder da experiência humana. Treinamentos, workshops, plataformas de e-learning… tudo isso tem seu valor, claro. Mas nada, absolutamente nada, desenvolve alguém tão rápido quanto o contato direto com realidades que desafiam, desconfortam e ampliam a visão de mundo. E é exatamente isso que o voluntariado proporciona.

Só que as empresas ainda não perceberam. Ou fingem que não perceberam. Talvez porque voluntariado não cabe em planilha, não gera KPI imediato, não entrega ROI em três meses. Talvez porque exige coragem para admitir que desenvolvimento humano não nasce de slides, mas de encontros. Ou talvez porque, no fundo, mexe com algo que o ambiente corporativo tenta controlar a todo custo: a subjetividade.

Quando você participa de uma ação voluntária, você não volta igual. Você volta mais atento, mais empático, mais crítico, mais consciente do impacto que gera — dentro e fora da empresa. E isso, por incrível que pareça, ainda assusta muita liderança. Porque gente transformada faz perguntas incômodas. Gente transformada não aceita propósito de fachada. Gente transformada cobra coerência.

O voluntariado corporativo é, portanto, uma ameaça silenciosa ao ESG de mentira. Aquele ESG que vive de relatórios, não de relações. Aquele ESG que fala de impacto, mas não conhece o nome de ninguém que vive esse impacto. Aquele ESG que se preocupa mais com reputação do que com responsabilidade.

E é justamente por isso que ele deveria ser levado a sério.

Se você quer medir o compromisso social de uma empresa, não olhe para o discurso. Olhe para o quanto ela incentiva seus colaboradores a se envolverem com o mundo real. Olhe para o quanto ela permite que pessoas encontrem propósito fora da mesa de reunião. Olhe para o quanto ela entende que sustentabilidade não é sobre salvar o planeta — é sobre salvar a humanidade de si mesma.

O voluntariado corporativo é o "S" do ESG em sua forma mais pura. Não porque resolve todos os problemas sociais, mas porque transforma quem tem poder para resolvê-los. E enquanto as empresas não entenderem isso, continuarão investindo milhões em estratégias que brilham por fora, mas não sustentam nada por dentro.

Talvez esteja na hora de você, que lê esta coluna, fazer a pergunta que muitas organizações evitam: como posso falar de impacto social se nem eu me permito ser impactado?

Essa resposta, nenhuma consultoria entrega. Mas o voluntariado entrega — e de graça.

Roberto Ravagnani

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