Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Partido dos Trabalhadores reagiram, nesta terça-feira (2/6), à conclusão da investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que propõe taxar em 25% as importações brasileiras como forma de punir práticas consideradas "desleais" pela gestão de Donald Trump.
Na proposta, o governo norte-americano faz uma série de críticas ao sistema de pagamento instantâneo brasileiro, o Pix, e ao Banco Central, entre outros pontos. Agora, o resultado da investigação será submetido a audiências públicas — a primeira está marcada para 6 de julho. A decisão final sobre a adoção do tarifaço caberá ao presidente dos EUA.
Nas redes sociais, aliados de Lula voltaram a usar o mote "o Pix é do Brasil" e passaram a acusar o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de estimular ações do governo Trump contra o país.
Flávio se reuniu com Trump na Casa Branca na semana passada, dois dias antes de o governo norte-americano anunciar a intenção de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
A ex-ministra das Relações Institucionais de Lula e deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) afirmou, em publicação no X, que a ameaça de um novo tarifaço é resultado de articulações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos contra o Brasil.
"O Brasil não pode e não vai ceder nada no Pix para as empresas americanas ficarem cobrando as taxas caríssimas dos cartões. O Pix é nosso, veio pra ficar e vamos defender essa conquista para o povo brasileiro. É criminoso o que os Bolsonaros fazem contra o Brasil. Traidores da pátria, do povo brasileiro", escreveu.
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) "seguem alimentando no exterior um discurso de ataque às instituições, à soberania econômica e às decisões do Brasil".
"Quem faz política internacional contra o próprio país não pode depois fingir surpresa quando interesses estrangeiros avançam sobre conquistas nacionais. São uns canalhas, traidores da pátria! Pix é tecnologia brasileira, ampliou concorrência, reduziu custos e virou parte da vida do povo. Defender o Brasil também é defender o direito do país decidir seus próprios caminhos", declarou.
Para o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), "não é coincidência" que a investigação tenha sido concluída "enquanto os Bolsonaros seguem rodando o mundo para atacar o Brasil, nossas instituições e nossa soberania". "Quem faz campanha contra o próprio país lá fora não pode posar de patriota aqui dentro", completou.
Já o secretário de Comunicação do PT Nacional, Éden Valadares, apelidou o que chamou de "novo ataque ao Pix e ao Brasil" de "Tariflávio". "O presidente Lula foi aos EUA defender o Brasil e nossa economia. O filho de Bolsonaro foi defender sua própria família, trair o país e de lá para cá as coisas só pioraram. Esse novo ataque ao Pix e ao Brasil tem nome: Tarifaço, Flávio, Tariflávio", comentou em postagem no X.
O PT também se manifestou oficialmente por meio de uma arte com a frase: "Pix é do Brasil, feito por brasileiros". Veja:

"Pix desleal"
De acordo com o relatório final do USTR, seis áreas prioritárias foram alvo de críticas: comércio digital, serviços de pagamento, acordos tarifários, desmatamento, etanol, propriedade intelectual e combate à corrupção.
A investigação concluiu que determinados atos, políticas e práticas do Brasil são "irracionais ou discriminatórios" e oneram ou restringem o comércio dos EUA, podendo, portanto, ser alvo de medidas. Para isso, o governo norte-americano se baseia na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
O documento aponta que o Pix cria vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital. Segundo o relatório, o Brasil discriminaria fornecedores norte-americanos ao conceder benefícios como maior disponibilidade, visibilidade e limites de tarifas ao sistema nacional.
"É injusto exigir que concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de taxas", afirma trecho do texto.
O relatório também reconhece a rápida adoção do Pix pela população e pelo comércio desde seu lançamento, destacando a redução de custos de transação e a ampliação da inclusão financeira. Ainda assim, dedica parte substancial à análise de possíveis assimetrias competitivas regulatórias.
A principal crítica é o fato de o Pix ser um sistema estatal e centralizado, o que, segundo o USTR, pode limitar a atuação de soluções privadas internacionais no país.
Entenda
A investigação foi aberta em 15 de julho de 2025 por determinação de Donald Trump. O prazo legal para definição e eventual implementação das medidas termina em 15 de julho deste ano. Até lá, a estratégia do governo será intensificar as articulações diplomáticas e acompanhar os desdobramentos da discussão, na tentativa de evitar que a recomendação se transforme em medida efetiva contra as exportações brasileiras.
Um grupo de trabalho bilateral, criado após reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, em 7 de maio, previa encerrar as negociações até a última sexta-feira (5/6), mas não houve avanços suficientes.
Antes da divulgação do relatório final, o USTR havia destacado o "engajamento construtivo" do governo brasileiro e manifestado expectativa de continuidade das negociações.
Veja as práticas citadas pelo relatório da USTR:
Produtos fora da lista de taxação
A proposta também inclui uma extensa lista, com 73 páginas, de produtos brasileiros que estarão fora da cobrança de 25% de tarifas proposta pelo país. Entre os itens isentos estão materiais informativos, doações, determinadas carnes, frutas, café, chá, cereais, sementes, minerais, terras raras, aeronaves brasileiras e peças aeronáuticas, além de produtos químicos orgânicos, farmacêuticos e fertilizantes.
Metrópoles