O governo federal discute a adoção de um modelo regional de seguro rural, com participação direta de estados e municípios na contratação e na gestão das apólices, como forma de ampliar a cobertura da produção agrícola e reduzir a vulnerabilidade do setor a eventos climáticos.
A proposta surge em meio à avaliação de que o sistema atual, baseado principalmente em subsídios federais ao prêmio individual, não tem escala suficiente para proteger a produção.
O assessor especial do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), Carlos Augustin, afirmou que experiências internacionais indicam que o seguro não precisa ser estruturado apenas por produtor, podendo ser organizado por território.
"O que eu aprendi no México é o seguinte: a gente pode fazer seguros comunitários, não precisa ser um por um. Tem que envolver o estado e tem que envolver o município também. Isso é muito comum lá. Você faz o seguro regional e a prefeitura administra depois", disse.
Pelo modelo citado, o seguro seria contratado coletivamente e o poder público local ficaria responsável por verificar perdas e distribuir os recursos aos produtores afetados.
"Depois, se houve dano, se houve cobertura, vai distribuir entre os agricultores o dinheiro. Não só seguro de clima, como também seguro de preço. Para, em caso de baixa de preço, o município ou o estado complementar a renda do agricultor com isso", detalhou.
Segundo ele, a lógica permitiria ampliar o acesso ao seguro, especialmente entre pequenos produtores, além de reduzir custos administrativos e aumentar a capilaridade da política.
"Seguro comunitário para pequenos produtores é claramente possível fazer no Brasil, com mais eficiência", frisou.
Para Augustin, o debate sobre o seguro rural no Brasil precisa partir do custo real da proteção agrícola. Segundo ele, "não existe seguro barato. Seguro barato é seguro ruim".
Ele explicou que, em modelos consolidados, como o americano, o seguro tem custo elevado, mas garante ampla cobertura.
Nos Estados Unidos, o prêmio pode chegar a 10% ou 15% do valor da produção segurada, e o governo subsidia cerca de 60% desse custo com recursos do orçamento agrícola. No Brasil, o subsídio existe, mas é menor, o que limita a cobertura do sistema.
"Nos Estados Unidos, 90% da área tem seguro. O governo paga 60% do prêmio, mas não é um seguro barato: custa 12%, custa 15%. Essa é a realidade", disse. "No Brasil nunca a gente pagou seguro de 10%. Sempre ficou ali perto de 5%. Por isso que não funciona. Não adianta. Barato não funciona", continuou.
Na avaliação dele, o país precisa rever a forma como distribui recursos dentro da política agrícola.
"O Brasil é muito forte no crédito em relação a eles e muito fraco no seguro. Eu diria que os recursos que estão sendo usados para segurança são ridículos. Não dá nem para começar a conversa", disse.
Discussão na Fazenda
Augustin afirmou que uma revisão da política já está em andamento dentro do governo federal.
"Isso já está em andamento no Ministério da Fazenda. O ministro Fávaro tem se empenhado em aumentar substancialmente o valor do seguro, e a Fazenda está estudando o que vai fazer", afirmou.
Hoje, o orçamento do seguro rural gira em torno de R$ 1 bilhão por ano, com parte dos recursos sujeita a bloqueios — neste ano, cerca de R$ 355 milhões seguem indisponíveis.
Em paralelo, a equalização de juros do Plano Safra 2025/26 soma R$ 13,4 bilhões ao longo dos contratos, com despesa anual próxima de R$ 15 bilhões.
A diferença reforça dentro do governo a avaliação de que o país ainda prioriza o crédito subsidiado e deixa a proteção produtiva em segundo plano.
Segundo Augustin, o avanço das mudanças climáticas torna a revisão do sistema urgente.
"Essa questão de mudanças climáticas não é só uma preocupação, é uma realidade. Se o Centro-Oeste tivesse tido o mesmo problema do Rio Grande do Sul, o que ia acontecer com o Brasil? E nós sem seguro? Onde é que vamos parar?", questionou.
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