A guerra tarifária entre Estados Unidos e China redesenhou o comércio internacional de commodities, com impacto direto no mercado de soja, principal produto de exportação do agronegócio brasileiro. Um estudo recente do American Enterprise Institute, assinado pelo ex-economista-chefe do USDA (Departamento de Agricultura americano), Joseph Glober, revelou dados significativos sobre os efeitos dessa disputa comercial.
Antes das tarifas do chamado "Dia da Libertação", a alíquota média americana sobre importações agrícolas era inferior a 4%, uma das mais baixas do mundo. Em questão de semanas, esse percentual saltou para mais de 16%. O impacto nas exportações americanas foi imediato: no primeiro semestre de 2025, as vendas agrícolas dos EUA para a China despencaram de US$ 12 bilhões para US$ 5,5 bilhões, com queda acentuada nas compras de soja.
O Brasil aproveitou essa oportunidade de mercado. As exportações nacionais de soja para a China superaram 85 milhões de toneladas em 2025, representando um crescimento de quase 18%. Mesmo com a tentativa dos Estados Unidos de reagir por meio de um acordo comercial, a tarifa de 10% sobre a soja americana foi mantida, e o volume acordado ainda permanece abaixo da média histórica do último quinquênio, favorecendo o produto brasileiro no mercado chinês.
O estudo também aponta tendências de longo prazo que podem beneficiar o Brasil. A China aumentou os investimentos em infraestrutura logística e portuária na América Latina, especialmente em território brasileiro. Especialistas alertam que esse movimento pode marginalizar os produtores americanos do mercado global por décadas. No entanto, o aumento da oferta global devido à safra recorde brasileira prevista para 2026 tende a pressionar os preços para baixo, o que já começa a gerar estresse financeiro também entre os produtores brasileiros.
Desafios para o produtor brasileiro
Apesar das oportunidades criadas pela guerra tarifária, o produtor brasileiro enfrenta três desafios concretos no curto prazo: juros altos com inadimplência crescente, custos em alta com preços em queda e os impactos climáticos do El Niño que se aproximam.
A AgriShow, feira agrícola que ocorre esta semana, deve fornecer indicativos sobre como o produtor brasileiro enxerga esses desafios e qual sua disposição para investir e crescer diante do atual cenário. Os resultados do evento serão importantes para avaliar as perspectivas do setor em meio a esse novo contexto do comércio internacional.
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