O Dia do Homem, celebrado em 15 de julho, traz à tona uma discussão que vai além dos cuidados físicos: a saúde emocional masculina. Ainda cercada por estigmas, a busca por apoio profissional esbarra em expressões como "homem não chora", "precisa ser forte" ou "tem que resolver tudo sozinho" — frases que, segundo especialistas, contribuem para o silêncio diante de problemas como ansiedade, depressão, estresse e esgotamento.
O psicólogo Cristiano de Paula aponta que a principal razão para os homens procurarem menos ajuda está na formação cultural. "Isso acontece principalmente porque vivemos em uma sociedade extremamente machista em que o homem não é ensinado desde cedo a procurar ajuda médica, a procurar tratamento, a procurar meditação, a procurar o autocuidado", afirma.
Como consequência, muitos homens recorrem a outros artifícios para lidar com o sofrimento emocional. "A gente vive uma sociedade que cada vez mais os homens usam outros artifícios em virtude da dor, do sofrimento emocional, como álcool e outras drogas", alerta o psicólogo.
Para o especialista, os estereótipos de masculinidade afetam diretamente a saúde mental. Quando um homem busca uma identidade masculina a partir do uso de álcool e outras drogas, ou da violência, ele desenvolve uma masculinidade adoecida. "Muitas vezes esse homem vai ser responsabilizado, criminalizado por conta desse comportamento que é tido masculino, mas na verdade é um comportamento machista, e não vai buscar ajuda", explica.
O psicólogo ressalta que uma sociedade machista também é prejudicial para os próprios homens. "O que a gente volta o nosso olhar é para despertar esses homens para que se pense que uma sociedade machista também é prejudicial para os próprios homens", afirma.
Cristiano de Paula destaca a importância de diferenciar a depressão masculina da feminina. Enquanto a depressão feminina tem características mais conhecidas, a masculina se manifesta de forma diferente. "Geralmente os homens que têm depressão se tornam irritadiços, agressivos, violentos, ou se voltam para uso de álcool e outras drogas", explica.
O psicólogo cita ainda o vício em jogos de aposta como um problema emergente que tem prejudicado cada vez mais a saúde dos homens.
Segundo o especialista, o cuidado deve começar desde a adolescência. "Os adolescentes de Ensino Médio, por exemplo, que passam por ansiedades em virtude do Enem ou das provas, nunca têm acompanhamento. A escola às vezes não tem esse arsenal para oferecer, esse menino não tem recurso emocional, não é ensinado, e fica perdido", afirma.
Ele defende a necessidade de políticas públicas voltadas à atenção dos homens. "A gente tem o 15 de julho como o Dia do Homem para que os homens lembrem a necessidade do autocuidado, a gente voltar as nossas políticas públicas de atenção aos homens", diz.
O papel da família
Cristiano de Paula ressalta que família, sociedade e órgãos públicos precisam voltar os olhares para os homens por meio de palestras, orientações e acompanhamento — seja no consultório médico, nas escolas ou nos ambientes de trabalho. "Principalmente em lugares onde a força de trabalho é muito necessária, onde a força física é exigida, que essas empresas também se voltem a atenção para isso. É um conjunto de fatores somados para que esses homens se voltem também para esse olhar do autocuidado", completa.
O psicólogo orienta que a observação dos hábitos diários é fundamental para preservar a saúde emocional. "Começar a observar como está a noite de sono. O uso de telas como um artifício de fuga ou de distração não é recreação. O uso excessivo de tela acaba sendo um vício que prejudica a saúde", alerta.
Ele também destaca a importância da alimentação e alerta para o uso excessivo de álcool, "que é a porta para as drogas".
Cristiano de Paula convida os homens a pensarem sobre seu propósito. "Por que eu estou como homem, por que eu vim à Terra como homem, qual é a minha missão, qual é o meu lugar na minha família, que lugar eu ocupo", questiona.
Ele chama atenção para um dado observado nas famílias: os homens morrem mais cedo, e isso ocorre por conta da falta de cuidado. "É importante que os homens comecem a despertar, comecem a olhar para si, comecem a perceber que eles também precisam de cuidados, e isso é muito importante para nós homens que somos pais e para passar essa mensagem também para os filhos", conclui.
Nathalia Figueiredo - Portal SGC